Antes mesmo de compreendermos nossa presença, já estamos no mundo. Ocupamos lugares, estabelecemos distâncias e encontramos outros corpos.
Mas ocupar um espaço não significa necessariamente habitá-lo.
Podemos estar em um lugar sem nos sentirmos pertencentes a ele. Talvez algo semelhante aconteça com o corpo: embora seja através dele que experimentamos o mundo, nem sempre reconhecemos plenamente a experiência de existir nele.
Para Merleau-Ponty, o corpo não é apenas um objeto situado no espaço, mas nossa própria possibilidade de estar no mundo. É através dele que percebemos, sentimos e estabelecemos relações.
A pele revela algo interessante dessa experiência. Ela delimita nosso corpo e, ao mesmo tempo, permite o contato com aquilo que está além de nós. É uma fronteira que separa, mas também conecta.
Didier Anzieu, ao desenvolver o conceito de Eu-pele, encontrou na experiência tátil uma referência para pensar a constituição psíquica. Quando uma mão toca a outra, somos, simultaneamente, quem toca e quem é tocado. O corpo também pode reconhecer a si mesmo na experiência de sentir.
Ao longo da vida, porém, aprendemos a observar nossa pele, suas marcas e transformações. Cuidamos, protegemos e modificamos sua aparência, muitas vezes tentando preservar uma imagem que já não corresponde ao corpo que estamos nos tornando.
Mas quanto dessa atenção dedicamos àquilo que a pele nos permite experimentar?
Não se trata de questionar os cuidados estéticos, mas de refletir sobre o momento em que o corpo passa a ser percebido principalmente como algo a ser observado e corrigido.
O corpo que vemos e o corpo que sentimos fazem parte da mesma existência. E nosso olhar sobre ele também se constrói na relação com o outro.
Desde cedo, encontramos referências em outros corpos. Reconhecemos semelhanças, percebemos diferenças e construímos significados sobre nós mesmos.
Mas quando essas diferenças se transformam em medidas de valor, a comparação pode ocupar o lugar do reconhecimento.
Passamos a comparar não apenas aparências, mas idades, escolhas, experiências e maneiras de existir.
Quem estabeleceu essas medidas?
Nosso olhar carrega histórias e referências culturais. O corpo não aprende apenas a ocupar espaço. Aprende também como deve ocupá-lo.
Aprendemos maneiras de sentar, caminhar, vestir, falar e expressar sentimentos. Como nos ajuda a compreender Clifford Geertz, a cultura organiza comportamentos e oferece significados através dos quais interpretamos o mundo.
Na história do feminino, o corpo também se tornou território de disputas e relações de poder. Instituições religiosas, políticas, familiares e sociais estabeleceram normas sobre a sexualidade, a aparência, os comportamentos e os espaços que as mulheres poderiam ocupar.
Foucault nos ajuda a compreender que o poder não atua apenas pela proibição, mas também pela produção daquilo que aprendemos a considerar normal e desejável.
Muitas dessas normas se transformaram, mas continuam presentes nas exigências de juventude, beleza, produtividade e controle sobre o próprio corpo. Podemos incorporar essas expectativas à maneira como nos percebemos, até confundi-las com nossos próprios desejos.
Quanto daquilo que desejamos corresponde à nossa experiência e quanto está relacionado à necessidade de sermos reconhecidas e desejadas?
Talvez aqui esteja uma das tensões da experiência feminina: a diferença entre ser desejada e reconhecer-se como desejante.
Desejar ser desejada também pode ser legítimo e prazeroso. A questão surge quando o olhar do outro se torna a principal referência para determinar nosso valor.
Podemos dedicar tanto esforço à construção de uma imagem desejável que deixamos de reconhecer aquilo que efetivamente desejamos viver.
Reconhecer a influência dos padrões culturais não significa deixar imediatamente de sentir seus efeitos. Podemos questionar uma exigência e continuar experimentando vergonha, medo ou insegurança diante dela.
A transformação não acontece apenas pela compreensão intelectual. Ela também se constrói na experiência, no contato com os sentimentos e no reconhecimento das próprias necessidades.
Na Gestalt-terapia, a experiência humana é compreendida na relação entre organismo e ambiente, em um processo contínuo de contato e ajustamento. Não existimos separadamente do mundo, mas também não estamos limitados a reproduzir todas as expectativas que encontramos nele.
Habitar o corpo, nessa perspectiva, não significa alcançar uma imagem definitiva de si. Significa ampliar a possibilidade de reconhecer aquilo que experimentamos e participar das transformações que atravessamos.
O corpo muda. Há marcas que chegam sem convite, desejos que já não são os mesmos, movimentos que encontram outros ritmos. Algumas mudanças acolhemos com curiosidade; outras nos fazem sentir saudade de quem fomos. Nem sempre é possível receber cada transformação com tranquilidade, e talvez não seja necessário.
Habitar o corpo não exige gostar de todas as suas formas, nem transformar cada mudança em uma conquista. Talvez seja também poder reconhecer o estranhamento, a resistência e o desejo de permanecer, sem perder de vista a vida que continua acontecendo nele.
Se ocupar um corpo é uma condição da existência, habitá-lo talvez seja um processo que nunca se conclui.
Não para alcançar uma versão ideal de nós mesmas, mas para ampliar as possibilidades de existir no corpo que somos.
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