terça-feira, 13 de outubro de 2026

ENTRE_TODO CORPO OCUPA ESPAÇO



 Antes mesmo de compreendermos nossa presença, já estamos no mundo. Ocupamos lugares, estabelecemos distâncias e encontramos outros corpos.

Mas ocupar um espaço não significa necessariamente habitá-lo.

Podemos estar em um lugar sem nos sentirmos pertencentes a ele. Talvez algo semelhante aconteça com o corpo: embora seja através dele que experimentamos o mundo, nem sempre reconhecemos plenamente a experiência de existir nele.

Para Merleau-Ponty, o corpo não é apenas um objeto situado no espaço, mas nossa própria possibilidade de estar no mundo. É através dele que percebemos, sentimos e estabelecemos relações.

A pele revela algo interessante dessa experiência. Ela delimita nosso corpo e, ao mesmo tempo, permite o contato com aquilo que está além de nós. É uma fronteira que separa, mas também conecta.

Didier Anzieu, ao desenvolver o conceito de Eu-pele, encontrou na experiência tátil uma referência para pensar a constituição psíquica. Quando uma mão toca a outra, somos, simultaneamente, quem toca e quem é tocado. O corpo também pode reconhecer a si mesmo na experiência de sentir.

Ao longo da vida, porém, aprendemos a observar nossa pele, suas marcas e transformações. Cuidamos, protegemos e modificamos sua aparência, muitas vezes tentando preservar uma imagem que já não corresponde ao corpo que estamos nos tornando.

Mas quanto dessa atenção dedicamos àquilo que a pele nos permite experimentar?

Não se trata de questionar os cuidados estéticos, mas de refletir sobre o momento em que o corpo passa a ser percebido principalmente como algo a ser observado e corrigido.

O corpo que vemos e o corpo que sentimos fazem parte da mesma existência. E nosso olhar sobre ele também se constrói na relação com o outro.

Desde cedo, encontramos referências em outros corpos. Reconhecemos semelhanças, percebemos diferenças e construímos significados sobre nós mesmos.

Mas quando essas diferenças se transformam em medidas de valor, a comparação pode ocupar o lugar do reconhecimento.

Passamos a comparar não apenas aparências, mas idades, escolhas, experiências e maneiras de existir.

Quem estabeleceu essas medidas?

Nosso olhar carrega histórias e referências culturais. O corpo não aprende apenas a ocupar espaço. Aprende também como deve ocupá-lo.

Aprendemos maneiras de sentar, caminhar, vestir, falar e expressar sentimentos. Como nos ajuda a compreender Clifford Geertz, a cultura organiza comportamentos e oferece significados através dos quais interpretamos o mundo.

Na história do feminino, o corpo também se tornou território de disputas e relações de poder. Instituições religiosas, políticas, familiares e sociais estabeleceram normas sobre a sexualidade, a aparência, os comportamentos e os espaços que as mulheres poderiam ocupar.

Foucault nos ajuda a compreender que o poder não atua apenas pela proibição, mas também pela produção daquilo que aprendemos a considerar normal e desejável.

Muitas dessas normas se transformaram, mas continuam presentes nas exigências de juventude, beleza, produtividade e controle sobre o próprio corpo. Podemos incorporar essas expectativas à maneira como nos percebemos, até confundi-las com nossos próprios desejos.

Quanto daquilo que desejamos corresponde à nossa experiência e quanto está relacionado à necessidade de sermos reconhecidas e desejadas?

Talvez aqui esteja uma das tensões da experiência feminina: a diferença entre ser desejada e reconhecer-se como desejante.

Desejar ser desejada também pode ser legítimo e prazeroso. A questão surge quando o olhar do outro se torna a principal referência para determinar nosso valor.

Podemos dedicar tanto esforço à construção de uma imagem desejável que deixamos de reconhecer aquilo que efetivamente desejamos viver.

Reconhecer a influência dos padrões culturais não significa deixar imediatamente de sentir seus efeitos. Podemos questionar uma exigência e continuar experimentando vergonha, medo ou insegurança diante dela.

A transformação não acontece apenas pela compreensão intelectual. Ela também se constrói na experiência, no contato com os sentimentos e no reconhecimento das próprias necessidades.

Na Gestalt-terapia, a experiência humana é compreendida na relação entre organismo e ambiente, em um processo contínuo de contato e ajustamento. Não existimos separadamente do mundo, mas também não estamos limitados a reproduzir todas as expectativas que encontramos nele.

Habitar o corpo, nessa perspectiva, não significa alcançar uma imagem definitiva de si. Significa ampliar a possibilidade de reconhecer aquilo que experimentamos e participar das transformações que atravessamos.

O corpo muda. Há marcas que chegam sem convite, desejos que já não são os mesmos, movimentos que encontram outros ritmos. Algumas mudanças acolhemos com curiosidade; outras nos fazem sentir saudade de quem fomos. Nem sempre é possível receber cada transformação com tranquilidade, e talvez não seja necessário.

Habitar o corpo não exige gostar de todas as suas formas, nem transformar cada mudança em uma conquista. Talvez seja também poder reconhecer o estranhamento, a resistência e o desejo de permanecer, sem perder de vista a vida que continua acontecendo nele.

Se ocupar um corpo é uma condição da existência, habitá-lo talvez seja um processo que nunca se conclui.

Não para alcançar uma versão ideal de nós mesmas, mas para ampliar as possibilidades de existir no corpo que somos.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

ENTRE_

Entre.

Uma palavra pequena, dessas que quase desaparecem no meio de uma frase. Entre uma coisa e outra, entre ontem e amanhã, entre duas pessoas, entre lugares, entre escolhas, entre aquilo que termina e aquilo que ainda não começou.

Entre vem do latim inter: no meio de, no intervalo de, no espaço que separa — e também relaciona — duas coisas. Na língua portuguesa, a palavra carrega ainda outra possibilidade que me interessa: entre também é uma forma do verbo entrar.

Entre.

De repente, aquilo que indicava uma posição também pode ser lido como um convite. Há algo depois daqui. Mas, para entrar, é preciso atravessar.

Talvez por isso a porta seja uma imagem tão recorrente quando falamos de mudanças. Portas separam dentro e fora, conhecido e desconhecido, permanência e partida. Podem estar abertas, fechadas ou entre abertas. Podemos atravessá-las, permanecer diante delas ou voltar. Mas há uma parte da porta sobre a qual pensamos menos: a soleira.

A soleira dá concretude à passagem. Marca onde um espaço termina e outro começa. Há um instante em que não estamos exatamente de um lado nem completamente do outro: estamos no limiar. A própria palavra remete ao latim limen, soleira, entrada, limite. O limiar é, assim, simultaneamente aquilo que delimita e aquilo que torna perceptível uma passagem.

No mundo concreto, atravessá-lo pode exigir apenas um passo. Subjetivamente, as passagens raramente oferecem essa precisão. Podemos saber exatamente quando uma relação terminou e não saber quando começamos a construir uma vida sem ela. Um corpo pode mudar antes que a imagem que temos dele consiga acompanhá-lo. Uma escolha pode ter sido feita enquanto partes de nós ainda permanecem ligadas àquilo que foi deixado. Às vezes sequer percebemos o momento da passagem; somente algum tempo depois olhamos para trás e reconhecemos que já não estamos no mesmo lugar.

No início do século XX, Arnold van Gennep observou que diferentes sociedades criavam rituais para marcar mudanças importantes da existência e identificou neles um movimento recorrente: separação, margem e agregação. Há aquilo de que nos afastamos, há aquilo a que chegamos, mas há também um espaço intermediário entre essas duas condições. Victor Turner se deteve justamente sobre essa margem ao desenvolver a ideia de liminaridade: a condição de quem já não ocupa inteiramente a posição anterior, mas ainda não pertence à seguinte.

Talvez estejamos acostumados a prestar atenção às extremidades das histórias. Aquilo que terminou e aquilo que começou. A partida e a chegada. A perda e a reconstrução. O antes e o depois. Como se toda passagem pudesse ser compreendida apenas por esses dois pontos. Mas existe aquilo que acontece no meio. E esse intervalo pode durar mais do que gostaríamos.

Há momentos em que aquilo que existia já não nos comporta, mas o que virá ainda não possui forma suficiente para ser chamado de novo. Sabemos que alguma coisa mudou, embora ainda não consigamos dizer exatamente o quê. Há um incômodo, uma ausência, uma vontade ou simplesmente a percepção de que determinada maneira de existir já não responde da mesma forma.

Talvez seja nesse ponto que o entre deixe de ser apenas a distância que separa dois lugares e passe a nomear uma experiência.

A Gestalt, ao falar sobre a fronteira de contato, não a compreende apenas como aquilo que separa, mas também como aquilo que permite reconhecer a diferença e, a partir dela, estabelecer uma relação. Nem toda fronteira precisa ser rompida para que exista movimento. Algumas nos protegem, outras precisam ser experimentadas aos poucos, e há aquelas diante das quais permanecemos por algum tempo porque ainda não sabemos — ou não conseguimos — atravessar.

Também não atravessamos deixando necessariamente tudo para trás. A imagem da cicatriz talvez ajude a pensar nisso. Uma ferida pode se fechar sem desaparecer completamente. A cicatriz é uma nova configuração do tecido, mas conserva a marca de sua história. Algo semelhante pode acontecer conosco: experiências podem ser assimiladas, transformadas e reorganizadas sem serem apagadas. O que surge depois não começa necessariamente do zero.

Essa ideia me interessa porque contraria a expectativa de que mudar seja substituir uma versão de nós por outra. Algumas coisas permanecem. Outras perdem importância. Algumas adquirem novos significados. Há ainda aquelas que só conseguimos compreender muito tempo depois. A passagem talvez não seja apenas aquilo que deixamos, mas também a maneira como aprendemos a carregar o que continua conosco.

E há passagens que desorganizam. Quando aquilo que sustentava determinada configuração da vida deixa de funcionar da mesma maneira, pode surgir um intervalo desconfortável entre a forma conhecida e outra que ainda não existe. Não há necessariamente aprendizado imediato, crescimento ou uma resposta esperando para ser encontrada. Às vezes há apenas um espaço ainda sem forma.

É justamente diante desse espaço que Winnicott oferece uma ideia que me parece especialmente interessante. Ao falar sobre o brincar, ele descreve uma área intermediária da experiência, um espaço potencial que não pertence inteiramente ao mundo interno nem à realidade externa. É nesse espaço que podemos experimentar, imaginar, criar relações e ensaiar possibilidades.

Embora brincar seja uma palavra facilmente associada à infância, essa capacidade não desaparece quando crescemos. Ela permanece na cultura, na escrita, na arte, na imaginação e nas diferentes maneiras pelas quais podemos experimentar algo sem precisar saber previamente onde aquilo chegará. Talvez exista algo do brincar também quando nos permitimos experimentar outra maneira de viver, pensar ou nos relacionar antes mesmo de termos certeza sobre ela.

Fayga Ostrower amplia essa ideia ao compreender a criatividade não como privilégio de artistas, mas como uma potencialidade humana. Criar é também formar: estabelecer relações, selecionar, reorganizar, associar e produzir novas configurações a partir daquilo que temos disponível. Não criamos a partir do nada. Criamos com aquilo que encontramos e também com aquilo que carregamos.

Talvez seja por isso que a criatividade tenha tanto a dizer sobre o entre. Quando uma forma anterior já não nos comporta e a próxima ainda não existe, não há necessariamente um caminho pronto esperando do outro lado da porta. Há algo que precisará ganhar contorno. E esse processo pode envolver tentativas, recuos, encontros, palavras, silêncios, escolhas e formas provisórias que mais tarde talvez precisem ser refeitas.

Há, porém, um tempo anterior à forma. Um intervalo em que sabemos que alguma coisa acontece, mas ainda não sabemos exatamente o quê. O que existia já não responde da mesma maneira e aquilo que poderá existir ainda não ganhou contorno. Talvez parte da angústia presente nesses momentos esteja justamente nessa indeterminação: na dificuldade de reconhecer, organizar ou nomear aquilo que estamos vivendo.

Diante do que ainda não conhecemos, buscamos maneiras de dar alguma concretude à experiência. Nomeamos, contamos, escrevemos, criamos imagens, estabelecemos relações. A linguagem é uma dessas possibilidades. Não porque uma palavra consiga encerrar aquilo que vivemos, mas porque nomear pode produzir contornos onde antes havia apenas uma experiência difusa. Entre aquilo que sentimos e aquilo que conseguimos dizer permanece sempre alguma distância — e talvez seja justamente nela que novas perguntas possam surgir.

Foi também desse lugar que nasceu o nome deste espaço.

ENTRE_

Entre como lugar: aquilo que existe no meio. Entre como relação: aquilo que aproxima sem necessariamente eliminar a distância. Entre como passagem: a soleira, o limiar, aquilo que separa e, ao mesmo tempo, permite atravessar. Entre como o espaço em que alguma coisa pode estar se formando antes mesmo de sabermos nomeá-la.

E entre, finalmente, como verbo.

Entre.

O traço depois da palavra deixa esse espaço propositalmente aberto. Não para que seja preenchido rapidamente, mas para que possa receber aquilo que emerge enquanto a vida acontece.

A escrita talvez seja uma maneira de permanecer um pouco nesse intervalo. Dar palavras ao que for possível, contornar experiências, produzir perguntas e olhar com mais atenção para aquilo que normalmente atravessamos com pressa. Não para encontrar respostas para todas as passagens, mas para abrir um espaço de reflexão sobre aquilo que acontece enquanto ainda estamos nelas.

É essa a proposta deste blog: olhar para esse espaço ENTRE_ enquanto a vida acontece.

Entre o que sabemos e o que ainda tentamos compreender. Entre aquilo que conseguimos nomear e aquilo que ainda procura forma.

O que vem depois do traço não está dado.

Talvez seja justamente essa a possibilidade.

Entre.

ENTRE_TODO CORPO OCUPA ESPAÇO

  Antes mesmo de compreendermos nossa presença, já estamos no mundo. Ocupamos lugares, estabelecemos distâncias e encontramos outros corpos....